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Trabalhando Juntos em Grupos e Comunidades

“Todos os homens estão presos em uma inescapável rede de mutualidade, atados em uma única veste do destino. O que afeta a um diretamente, afeta a todos indiretamente. Nunca poderei ser o que devo ser até que você seja o que você deve ser. E você nunca poderá ser o que deve ser, até que eu seja o que devo ser.”

Martin Luther King

 

Conversação

Tomamos como certo algo que, na verdade, é um mistério da vida: o mistério da conversação. Pense em como uma imagem em sua consciência – “a beleza de uma manhã de primavera em São Francisco, com a neblina sendo levada pelo vento para fora da Baía” – é traduzida em conceitos e, em seguida, em fala audível, envolvendo todo um complexo conjunto de músculos da garganta e da boca. Seu amigo ouve estas palavras através da membrana do ouvido e as compreende, internaliza seus pensamentos e, em seguida, fala. Um aspecto do mistério é como somos capazes de transformar a consciência, o não-sensório, em fala audível e gestos visíveis. Outro aspecto é como o outro é capaz de receber os sons que foram expressos e deles tirar algum sentido. Um terceiro é como no diálogo, na conversação entre dois ou mais indivíduos, é criado algo novo – uma idéia, significado ou decisão.

Na conversação podemos identificar três partes: eu, você e aquilo que surge entre nós. Também podemos nos tornar cientes de três processos centrais: o falar, a transformação de idéias em fala audível e gestos visíveis; o ouvir ou a internalização para dentro de nós mesmos do significado do outro; e terceiro, a compreensão, individual e conjunta. Cada processo requer consciência e atenção. Quanto mais focalizada for nossa consciência mútua, melhor o resultado.

Ao falar, podemos nos perguntar: Que elementos essenciais desejo comunicar? Que exemplos e imagens tornarão isto compreensível? Quem é o outro, que palavras ou imagens farão sentido para ele ou ela? Posso ser conciso, para que o outro não fique perdido?

Ao ouvir, podemos nos perguntar: Consigo ficar em silêncio? Consigo concentrar-me no pensamento, nas palavras, nos gestos do outro? Posso não reagir até ele ter terminado? Consigo realmente estar presente, com interesse amoroso? Posso fazer perguntas de esclarecimento antes de responder?

Para compreender, podemos refletir sobre: Está claro para mim? Estou sendo compreendido? Posso ver onde há semelhanças e diferenças em como vemos a questão? Posso contribuir para o diálogo com uma atitude de mutualidade, de criação conjunta e perceber o que é novo?

No processo do diálogo, da fala, do ouvir e da compreensão estamos exteriorizando nosso ser anímico, estamos compartilhando quem somos. Isto envolve mais do que meras palavras e idéias: inclui nossos sentimentos e intenções. Assim, estamos criando um tipo de música anímica na conversação: a melodia de nossos pensamentos e idéias; o conteúdo sentimental das harmonias, desarmonias, crescendos e pianíssimos; e o ritmo e a batida de nossa intenção plena de vontade. Nossas idéias normalmente são mais conscientes; nossos afetos, desafetos e sentimentos, menos conscientes; e nossas intenções, menos conscientes ainda.

Quanto mais formos capazes de colocar nosso ser pleno, ou nossa alma inteira à disposição do momento presente, sem preconceitos ou pauta pré-estabelecida, tanto mais conseguiremos ser artistas sociais, permitindo que a mágica da conversação atue entre nós. Almoço com freqüência com um amigo meu a fim de compartilharmos o que está acontecendo em nossas vidas e conversarmos sobre nosso processo de desenvolvimento interior. Os temas vão desde trabalho, filhos e casamento, até questões relacionadas à meditação. Ele ouve tão bem e está tão presente que a conversação é sempre viva, espontânea e enriquecedora.

Se prestarmos atenção àquilo que acontece com nossa consciência durante a conversação, podemos observar o fluxo de altos e baixos entre estarmos acordados para nós mesmos, para nossas idéias e sentimentos quando estamos falando e para o ouvir quando estamos mais atentos para os outros e menos conscientes de nós mesmos. Quando falamos, estamos em nós mesmos, ocupados com a tarefa de articular nossos pensamentos, sentimentos e intenções, e quando ouvimos, deixamos nosso próprio espaço anímico e entramos no do outro. Para a maioria de nós é infinitamente mais difícil e cansativo ouvir verdadeiramente do que falar, pois exige que silenciemos nosso diálogo interno e prestemos atenção a outrem.

Rudolf Steiner descreve uma reunião, uma conversa entre dois indivíduos, como o fenômeno social arquetípico, sugerindo que este seja o bloco construtor primordial da comunidade ou da sociedade. Sempre fazemos parte de uma comunidade lingüística, seja ela da língua inglesa, espanhola, chinesa, ioruba ou balinesa. E, através da nossa herança cultural, compartilhamos um universo de significados: delegacias não são lanchonetes, escolas não são lavanderias – pelo menos, não é esta a sua intenção. Dentro do contexto da língua e do significado, nos engajamos em atos de criação social – a compra de uma camisa, o aluguel de um carro, o planejamento de uma reunião de pais ou o início de uma nova escola. Realizamos estes atos com e através do diálogo. Ao participarmos deste diálogo, da conversação em suas diversas formas, podemos aprender mais a respeito do misterioso processo de criação social que resulta quando dois ou mais seres humanos se reúnem.

Diferentes Tipos de Grupos

Conversações acontecem em contextos de grupo estruturados ou não-estruturados: um refresco após uma festa na escola, a reunião da comissão financeira ou um grupo de estudo sobre educação Waldorf. É importante saber de que tipo de grupo estamos participando e termos clareza a respeito das expectativas mútuas. Não vai funcionar se eu quiser explorar meus interesses nos ciclos planetários e nas fases do desenvolvimento humano na reunião da comissão financeira, tampouco que você insista numa agenda pré-estabelecida e um processo decisório consensual claro por em um grupo de estudo.

Grupos de estudo compartilham material escrito ou falado, explorando temas de interesse mútuo: romances do século XIX, aves do nordeste, ou o desafio de educar filhos na virada do século. As pessoas se reúnem principalmente para enriquecer a percepção e a experiência uns dos outros, não com a intenção de concordar em relação a algum aspecto ou de realizar uma tarefa comum. Grupos sociais são grupos de apoio mútuo: eles existem para compreender, usufruir e apoiar uns aos outros, seja na forma de um programa de 12 passos ou através de um jogo de baralho entre amigos. O propósito é o encontro e o compartilhamento entre as pessoas. Grupos de trabalho, por outro lado, têm tarefas definidas que extrapolam o próprio grupo, seja planejar o bazar de Natal, elaborar o orçamento dos próximos anos ou avaliar os candidatos para o próximo primeiro ano.

Tipos de Grupos em Relação às Atividades Dominantes

imagaimagbCONTEÚDO (PENSAMENTOS)

imagc

ESTUDO

imagdimagfimaggimaghRELACIONAMENTOS

imagiimagjGRUPO SOCIAL (SENTIMENTOS) PROPÓSITO

imaglimagm  

 

imagnPROCEDIMENTOS

TRABALHO (VONTADE)

Ainda que todos os grupos tenham um elemento de conteúdo (estudo), um elemento relacional (social) e uma dimensão de tarefa (trabalho), eles tendem a enfocar mais uma área do que as outras.

Bernard Lievegoed descreve grupos de estudo como sendo grupos que oferecem a oportunidade para praticarmos o caminho das oito vias, o caminho do Buda, dedicado a alcançarmos o equilíbrio correto entre a alma individual e o mundo; o grupo social como o chamado para o caminho cristão das seis vias do entendimento mútuo e da compaixão; e o grupo de trabalho como exigindo um caminho rigoroso de autodisciplina. Ele acrescenta:

“No grupo de estudo, o antigo carma se revela, pois efetivamente usamos nossas capacidades de outras encarnações.”

“No grupo social, o antigo carma é remanejado, pois modificamos e atuamos sobre nosso destino mútuo através do encontro e do apoio mútuo.”

“No grupo de ação, um novo carma é formado, pois colocamos nossas capacidades individuais à disposição de novas metas comunitárias ou organizacionais.”

Todos os três grupos desempenham papéis significativos na vida das comunidades de escolas Waldorf. Em qualquer grupo é importante construirmos clareza mútua quanto ao propósito do grupo, seus objetivos específicos, o formato e o estilo da reunião. A discussão do propósito, dos objetivos e das responsabilidades dos grupos evita inúmeros problemas mais tarde, pois este exercício harmoniza as expectativas e as intenções.

O Ciclo do Aprendizado Mútuo

Freqüentemente a aprendizagem em grupos ocorre fora das reuniões – no corredor, entre amigos, ou no carro a caminho de casa. “Que reunião fantástica!” “Por que será que foi tão sem graça?” “Carlos continua a monopolizar – por que será que ele não aprende?” “Desperdiçamos um bocado de tempo, não foi?” O aprendizado não é compartilhado por todos e, especialmente, não por aqueles que nós desejaríamos que mudassem. O pior de tudo: ao avaliarmos o grupo de modo informal, não assumimos a responsabilidade pelo sucesso ou pelo fracasso da reunião, muitas vezes sentindo que isto é responsabilidade do coordenador ou de quem convocou a reunião. Portanto, é útil seguir um princípio básico em todos os grupos, em especial em grupos de trabalho. Primeiro, planejar em conjunto; em seguida, realizar a reunião; e, por fim, rapidamente revisar em conjunto a reunião.

Ao chegar, assegurar-se de que a sala esteja adequadamente disposta e que todos estejam presentes. Em seguida, iniciar com um momento de silêncio ou um verso para centrar a consciência. Depois é possível verificar: qual é a agenda? Que pontos iremos discutir ou que decisões precisamos tomar? Podemos alocar o tempo de acordo com a importância dos tópicos? Dispomos de todas as informações relevantes para cada tópico que está sendo discutido? Quem irá coordenar a reunião? Quem fará anotações?

Durante a reunião, assegurar-se de que os membros do grupo tenham a oportunidade de falar e de serem ouvidos por todos e que haja um razoável equilíbrio entre falar e ouvir. Reserve tempo para as decisões, especialmente se você estiver trabalhando com base no consenso.

Depois, reserve cinco a dez minutos para revisar os resultados e o processo da reunião. Algumas perguntas a serem consideradas são:

Estado de espírito:

Qual foi o estado de espírito da reunião? Quais foram os pontos altos e baixos e por que? Houve tensões e como elas foram tratadas?

Procedimento:

Havia clareza a respeito da agenda e dos objetivos da reunião? Realizamos o que nos propusemos a fazer? Onde foi que nos perdemos? Como foi o processo de tomada de decisão? Onde acertamos e onde erramos? Usamos nosso tempo de modo adequado?

Falar e ouvir:

As pessoas conseguiram falar? As contribuições se complementaram? Como foi o ouvir? Como foi a participação e o engajamento? Houve dominância de certos subgrupos?

Papéis de liderança:

Como foi a coordenação? Outros ajudaram no processo? Quem desempenhou quais papéis informais? Houve um assessor ou coach (treinador) de processo? O que foi útil?

Aprendizado:

O que poderia ser melhor em reuniões futuras (dois exemplos)? O que esta reunião nos ensinou a respeito do trabalho em grupo?

É claro que há muitas perguntas que podem ser feitas durante a revisão de uma reunião e há diversas maneiras de fazê-lo. Pode-se promover a rotatividade da responsabilidade de revisar as reuniões, contanto que o revisor faça perguntas ao grupo, e não emita pronunciamentos ou julgamentos. Uma boa maneira de começar é sempre verificar: como foi, o que transcorreu bem, o que não foi tão bem assim? Às vezes peço aos membros de um grupo que descrevam sua experiência através de uma metáfora utilizando o tempo ou uma paisagem, e peço que expliquem o sol, as trovoadas ou a passagem nas montanhas que foi transposta com sucesso.

APRENDIZAGEM (4)

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REPLANEJAR (5) GRUPO

PLANEJAR (1) REVISAR (3)

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FAZER (2)

O desenvolvimento em grupos ou equipes se dá melhor através do aprendizado mútuo. É importante seguir um ciclo simples de aprendizado, constituído por planejar, fazer, revisar, aprender e então re-planejar. Desta forma, um grupo ou comissão gradualmente irá aumentando suas habilidades e sua sensibilidade, tornando-se cada vez mais competente na arte da conversação. A equipe também vai adquirindo cada vez mais confiança em si e nos demais, pois a aprendizagem comum reduz a necessidade de fofoca e permite que situações difíceis sejam discutidas cada vez com menos medo.

Papéis Grupais

Muitas vezes os grupos pensam em liderança como sendo um presidente ou coordenador, ignorando a grande diversidade de funções de liderança que uma equipe, comissão ou grupo bem-sucedidos precisam exercer. Se a liderança é vista como estando presente numa única pessoa, é muito freqüente o resultado ser determinado pelas habilidades desta pessoa. Em grupos maduros e efetivos, todos os membros da equipe sentem-se responsáveis e exercem alguma liderança.

imagtimaguimagvimagximagzimaa (1) Liderança única (2) Liderança e responsabilidade

imabimacimadcompartilhadas

imaeimafimagimahimaiimaj  

imalimamimanimaoimap TAREFA

Em reuniões de Escolas Waldorf – do colegiado, da diretoria e de suas principais comissões – sugiro quatro papéis. Que haja um coordenador ou presidente da reunião, que prepara a agenda, faz a abertura e coordena a reunião, ajudando o grupo a alcançar suas metas. Este papel implica em orientar e facilitar a reunião, não em controlar a conversação ou em ser coercitivo. Os melhores coordenadores são aquelas pessoas que tem clareza quanto aos procedimentos e têm um bom senso de processo; que conseguem promover o avanço da reunião, assegurando-se de que todos disponham de espaço e do incentivo necessários para se expressar. De modo geral, não é uma boa idéia fazer a rotação da função de coordenação entre uma reunião e outra quando se trata de comissões ou grupos permanentes, uma vez que é necessário que alguém se sinta responsável pela agenda. Além disso, coordenar reuniões é uma habilidade aprendida, que nem todos têm. Permita que uma pessoa coordene durante um ou dois anos, antes de considerar quem mais agora está preparado para assumir uma tarefa tão importante. Discutam em conjunto o papel e as qualidades necessárias para preencher a função e então peçam a alguém que aceite a responsabilidade. Não dependam de voluntários, porque então o grupo não conseguirá explorar em conjunto quem é a pessoa correta para esta tarefa neste momento.

A segunda função formal é a de assessor ou coach do processo, um papel que permite rotatividade entre reuniões. Como o coordenador está ocupado presidindo a reunião, é importante haver alguém que se sinta responsável pelo processo – que perceba quando as coisas estão empacadas ou porque alguém se sente magoado. Esta pessoa pode participar da reunião ou observar; contudo, se estiver demasiado envolvida com a discussão ou com a decisão, ela não conseguirá manter sua capacidade de percepção e objetividade. O coach do processo observa a qualidade das relações, o falar e o ouvir, bem como o procedimento e a evolução da reunião. Ele necessita ter o direito e a responsabilidade de fazer perguntas ou intervir para apoiar o desenvolvimento do grupo durante a reunião. As observações podem incluir:

  • É hora de seguir adiante, pois ainda temos dois itens a serem discutidos.
  • Já faz algum tempo que Maria está tentando falar. Será que podemos lhe dar uma oportunidade?
  • Chegou-se a um acordo em relação ao último ponto? Parece que ainda falta fazermos isto de modo consciente.
  • Sugiro que façamos um breve intervalo. O grupo parece necessitar renovar suas energias.

Muitas vezes o coach do processo também pode orientar o processo de revisão ao final, visto que ele ou ela esteve observando e ouvindo atentamente.

O terceiro papel formal é o do escrivão ou relator, que irá anotar as decisões tomadas e quem assumiu quais responsabilidades. Nas reuniões de Diretoria, da Conferência Interna ou do Colegiado de professores é importante haver uma ata datilografada, que possa ser rapidamente revisada no início da próxima reunião. Para reuniões mais longas, também pode ser útil para o facilitador trabalhar com o quadro negro ou com um flip chart, a fim de dar ao grupo um foco comum.

Por fim, há o papel do membro do grupo que necessita estar preparado para a reunião, para contribuir com suas idéias e capacidades e para sentir-se interna e externamente responsável pela reunião. Todas as conversas e reuniões contam com uma grande diversidade de qualidades que nós, indivíduos, trazemos para as reuniões. Se compararmos um diálogo a um concerto, então cada um de nós toca um instrumento – alguns o clarinete ou a flauta; outros, o violino, a percussão ou a trombeta. Os instrumentos numa orquestra são agrupados em seções: as cordas, os instrumentos de sopro, os metais. Nas reuniões maiores, envolvendo todo o corpo docente e funcionários, creio que ocorre algo semelhante: ainda que cada um de nós tenha seu próprio instrumento, sua combinação singular de personalidade, orientação anímica e temperamento, tocamos juntos com os demais instrumentos, em seções. Algumas pessoas são bastante falantes e têm uma forte percepção processual. Outro grupo é mais silencioso, mas é fortemente orientado para o ouvir e apoiar, enquanto um terceiro grupo inicia, fala e faz a reunião avançar.

Observei anteriormente que um grupo atua em três níveis:

no nível de conteúdo: de idéias, conceitos, exemplos, histórias e argumentos (PENSAR);

  • no nível relacional: de sentimentos, valores e atitudes (SENTIR);
  • no nível processual: de objetivos, metas, intenções (QUERER).

Se analisarmos cada uma destas dimensões mais claramente, poderemos ver que cada uma delas contém uma polaridade. No conteúdo, a polaridade se dá entre as idéias e conceitos (abstrato) e as histórias e os exemplos (concreto). Nos relacionamentos, ela se dá entre falar, iniciar, seguir em frente e ouvir, apoiar e nutrir. Nos processos, são os objetivos e as metas e a revisão e a síntese: para onde vamos? E onde estamos agora?

Qualidades Planetárias da Liderança Grupal

Saturno

METAS

OBJETIVOS Marte

imaqJúpiter MASCULINO

imarimasimatCONCEITOS INICIAR

IDÉIAS ORGANIZAR

imau Sol

imav EXEMPLOS

imaxOUVIR HISTÓRIAS FEMININO

APOIAR HUMOR

NUTRIR Mercúrio

Vênus

 

REVISAR

RESUMIR

Lua

(3 eixos: Procedimentos, Conteúdo, Relações)

Qualidades da Liderança de Grupo/ Orientações Anímicas

Um diálogo saudável e equilibrado duradouro requer muitas qualidades anímicas. Um falar e iniciar exacerbados, sem o necessário ouvir, levará ao caos; se houver demasiado ouvir, nada acontece; se houver exemplos demais e não conseguirmos vincular as idéias, iremos nos perder. Se o grupo for muito orientado para metas ou faz revisões demais, perde-se a vida.

A maioria dos grupos terá todas estas qualidades distribuídas entre seus membros. Em minha experiência, temos todas elas em nossas almas, mas temos uma qualidade dominante e duas secundárias. É interessante e importante trazer à consciência qual destas qualidades possuímos naturalmente e podemos, portanto, oferecer ao mundo. Algumas pessoas são fortemente orientadas para a organização (Marte), associada à consciência das metas (Saturno), com muito humor e histórias (Mercúrio). Outras têm o ouvir/a cura (Vênus) como sua qualidade dominante, associada à clareza conceitual e a um amor pelas idéias (Júpiter), com uma capacidade de reter as coisas, resumir ou perguntar ao grupo onde ele está (Lua). Se os grupos reconhecerem que cada uma destas qualidades é importante para o funcionamento sadio, então eles começarão a reconhecer que cada pessoa tem um importante papel de liderança a desempenhar. Buscar o equilíbrio, a influência harmonizadora do Sol, passa a ser uma responsabilidade conjunta.

As qualidades planetárias têm qualidades positivas e negativas na medida em que se manifestam em grupos e em nós mesmos. A qualidade jupiteriana da sabedoria pode tornar-se abstração árida ou tédio filosófico. Marte – a qualidade de iniciar e organizar – pode tornar-se um tirânico Thor, cujo martelo queremos evitar a todo custo. Saturno pode trazer a consciência do tempo, mas também pode mostrar-se excessivamente focado em processos, roubando a vida inerente à conversação. Mercúrio, que pode trazer vida através do humor, também pode trazer muita irrelevância, com histórias e anedotas fora de contexto. O calor e o apoio nutridor de Vênus podem transformar-se numa demanda sufocante por explorar todos os sentimentos; e a Lua, a reflexão e o sintetizador, pode retardar todo o processo ao perder-se na busca por esclarecimentos sem fim. Se tais qualidades anímicas irão atuar positivamente ou não depende do contexto, de se podemos compartilhar tais qualidades no momento adequado e em razoável equilíbrio; se conseguirmos perguntar o que é necessário agora e contribuir de acordo, podemos buscar promover uma dança anímica criativa, ao invés de tédio, mal-estar ou irritação.

As qualidades planetárias são orientações anímicas que possuímos enquanto indivíduos e podemos oferecer ao grupo. Também temos temperamentos e personalidades únicas e, portanto, a forma como iremos trazer estas qualidades para a conversação irá variar. As qualidades das idéias, das metas e do iniciar, Saturno (Tempo Paterno), Marte (Deus da Guerra), Júpiter (Deus da Sabedoria) têm um aspecto mais masculino, enquanto o ouvir e nutrir (Vênus, Deusa do Amor), a síntese, o refletir (Lua) e o humor, as histórias e os exemplos (Mercúrio, Mensageiro dos Deuses e Deus dos Ladrões) têm um lado mais feminino. Uma maneira de revisar as reuniões é explorando o equilíbrio entre estas qualidades masculinas e femininas, na medida em que elas ocorreram ao longo da conversação.

Em meu trabalho com diferentes grupos também tive a oportunidade de observar tanto grupos inteiramente masculinos quanto inteiramente femininos. Freqüentemente chamou minha atenção que grupos de mulheres, ao realizarem uma tarefa, gastem boa parte do tempo criando vida e estabelecendo relacionamentos antes de prosseguirem com as tarefas, enquanto para os homens, realizar a tarefa define a vida e os relacionamentos. Ambos são igualmente eficazes em realizar o objetivo, mas o caminho percorrido é muito diferente e pode ser motivo de descontentamento em grupos mistos.

Tocar o Concerto: Tomadas de Decisão Grupais

Permita-me retomar a metáfora da orquestra. Cada um de nós é um instrumento (uma certa combinação de qualidades anímicas) e tendemos a tocar nossos instrumentos juntamente com outros violinos, instrumentos de sopro ou de metal (seções ou sub-grupos). Temos um coordenador (o maestro), e um primeiro violino (o coach de processo). Enquanto conversamos, tocamos notas (o conteúdo – palavras, idéias), criamos melodias (a harmonia ou desarmonia do que gostamos e do que não gostamos), de acordo com um certo ritmo (o processo). O planejamento da reunião é importante, pois determina a partitura específica que estamos tocando juntos. Sem uma partitura ou peça musical comum criamos o caos. O coordenador (maestro) nos ajuda a entrarmos no momento apropriado (controlando o falar e o ouvir) e nos mantém no compasso adequado (processo). Assim como numa peça musical – digamos um concerto – tem partes que lhe são específicas, o mesmo ocorre com a reunião da diretoria ou do colegiado de professores. Quanto mais clareza tivermos a respeito das fases deste diálogo, tanto mais bem-sucedido será o concerto. Um concerto tem quatro partes principais: a abertura, que toca o tema; um primeiro movimento, no qual o tema é elaborado de diversas formas; um segundo movimento (normalmente um movimento mais rápido) no qual são desenvolvidas variações e sub-temas e, por fim, um movimento final. Da mesma forma, um diálogo em grupo inclui quatro partes principais: a fase de planejamento, na qual os tópicos e objetivos da reunião são exploradas e esclarecidas; uma parte informativa, na qual ‘iluminamos’ a questão a partir de diversos pontos de vistas, reunindo todos os fatos relevantes; uma fase de julgamento ou avaliação, na qual exploramos os critérios e valores relevantes; e então uma fase de conclusão, na qual afirmamos nossas conclusões e tomamos decisões. Desde o início é importante sabermos se estamos buscando chegar a uma conclusão. Por exemplo: por que a política de avaliação de professores não foi seguida neste caso ou na tomada de uma decisão? Iremos modificar a política, acrescentando um novo passo ao processo? As conclusões são voltadas para o passado, enquanto decisões são voltadas para o futuro e exigem de nós que transformemos a decisão tomada em ação. Muitos grupos que não estão suficientemente cientes dos processos irão saltar diretamente da descrição de um problema para uma discussão das opções para resolvê-lo, antes de terem explorado adequadamente as causas. Ou, o que é mais comum, alguns membros do grupo irão buscar as causas, enquanto outros irão explorar as soluções, causando confusão no grupo. Um exemplo de como as fases do trabalho em grupo podem ser abordadas de forma mais consciente é apresentado a seguir.

I. Análise do Problema – Causas (Passado)

Planejamento: Criação de Foco – Calor

Assunto: O Bazar de Natal

Objetivo: Compreender por que houve uma queda de 20% na receita de 1995 em

relação ao ano anterior (causas)

Construção da Imagem – Brainstorming: Coleta de Informações – Luz

“Choveu no sábado.”

“Havia menos itens de artesanato elaborados pelos pais.”

“Os itens mais caros ficaram dispostos no fundo do salão.”

“A divulgação atrasou-se.”

“Não houve rifa.”

Julgamento / Avaliação: Compartilhamento de valores – Água

Qual é a informação mais relevante e por que?: A rifa gerou R$ 2.000,00 no ano passado. “A falta dela foi prejudicial.”

“Penso que a divulgação deficiente e a falta de itens vendáveis fizeram a diferença.”

“Não houve tanto entusiasmo este ano, porque menos pais se envolveram na confecção de itens para o Bazar” – publicidade e entusiasmo foram considerados critérios-chave.

Conclusão: A publicidade tardia e um menor envolvimento dos pais foram causas-

chave para a redução na receita.

Revisão da Reunião

II. Tomada de Decisão – Futuro

Planejamento:

Assunto: Bazar de Natal

Objetivo: Passos para aumentar o sucesso

Compartilhar de Informações: Decisões Alternativas

Exigir que todos os pais façam coisas.

Aumentar o tamanho da comissão do Bazar.

Iniciar os grupos de artesanato de pais no início de setembro.

Iniciar a divulgação em meados de outubro e dar seqüência a ela um mês mais tarde. Criar uma comissão de rifa, em separado da comissão do Bazar.

Avaliar a Efetividade das Alternativas:

Uma discussão dos méritos relativos das diversas propostas.

Critérios de Julgamento: mudanças com o máximo de impacto e com o menor

ônus para a comunidade.

Decisão:

Iniciar os grupos de confecção de artesanato mais cedo e ter pelo menos um grupo

por classe.

Estabelecer uma sub-comissão para a rifa.

Iniciar a divulgação no final de setembro.

Na medida que refletimos sobre os quatro estágios ou movimentos da tomada de decisão em grupo podemos observar que eles realmente descrevem as qualidades de qualquer processo de criação. Em primeiro lugar, precisamos de interesse e entusiasmo para escrever um documento, fazer uma pintura ou começar uma escola. É necessário contar com a qualidade do compromisso, do entusiasmo, do fogo. Em seguida coletamos informações e recursos. Começamos experimentando diversas cores, coletando idéias centrais ou citações ou, no caso de uma escola, nos familiarizando com as maravilhosas qualidades do currículo Waldorf (luz). A seguir, entramos na fase de julgamento ou avaliação, um momento aquoso e incerto: a pintura necessita de mais forma e de mais vermelho; o parágrafo final do artigo está fraco; a escola deveria estar localizada no centro da cidade ou na periferia; e quando será que teremos dinheiro suficiente para podermos começar? Por fim, chegamos a uma conclusão ou decisão. O vermelho se encaixa bem aí e agora eu terminei; ou vou encerrar o artigo com uma citação e depois digitá-lo novamente; ou a igreja episcopal tem um espaço perfeito para nós, suficiente para um jardim de infância e seis classes do grau e podemos iniciar no próximo ano. O processo de criação passou pelo fogo da vontade através da luz, pela água, até finalmente chegar à terra, manifestando-se na forma de ação.

O motivo pelo qual os relatórios das comissões em uma reunião maior muitas vezes são sem vida é, em parte, porque somente comunicamos a conclusão ou decisão – o elemento terra final, sem a vida que fluiu para dentro dele. Portanto, é melhor manter os relatórios reduzidos ao mínimo e acrescentar um ou dois comentários sobre o processo seguido para chegar a esta conclusão.

Tomada de Decisão por Consenso

Em qualquer processo grupal, é a diferença de opinião sobre o que saiu errado ou o que devemos fazer agora que gera tensão e desencontro. É na fase de julgamento que nossas diferenças em termos de pontos de vista e valores se manifestam. Quando tomamos decisões por meio de votação, perdemos a oportunidade de explorar tais diferenças e a maioria determina a direção a seguir. Neste sentido, votar é uma forma de legitimar o conflito. Ainda que haja a expectativa de que a minoria saberá perder e irá aderir ao caminho da maioria, nas instituições colegiadas – como as escolas Waldorf – não há uma hierarquia clara que possa atuar como elemento reforçador da decisão tomada. Conseqüentemente, as decisões controversas costumam não ser acolhidas de coração aberto por todo o colegiado de professores ou quadro de funcionários. Portanto, do ponto de vista prático e filosófico, faz mais sentido trabalhar com um processo consensual de tomada de decisão, um processo no qual todos tenham a oportunidade de expressar-se a respeito do tema e esclarecer os motivos de seu ponto de vista específico. Após trabalhar com e observar tomadas de decisão consensuais ao longo de muitos anos, penso ser importante estar ciente dos seguintes princípios:

Usar um processo decisório consensual formal para todas as decisões importantes; nas questões menores, apenas verificar se o grupo está de acordo com prosseguir nesta direção.

  • Na medida que entramos em um processo consensual, lembrar as pessoas que todos terão oportunidade de falar, que cada pessoa irá falar: a) se elas apóiam a decisão; b) se elas têm reservas a respeito, mas não a bloqueariam; ou c) que elas irão bloqueá-la porque não podem, com a consciência tranqüila, endossar o que está sendo proposto e por que.
  • Em um processo consensual, é importante reconhecer três passos distintos:
  • a discussão inicial da questão;
  • a formulação de uma ação ou decisão proposta pelo coordenador ou por alguém competente em captar o “sentimento da reunião”.
  • um comentário de todos os presentes sobre a proposta, declarando se aprovam, questionam ou se opõem e seus motivos para tal.

4) Antes de verificar a posição das pessoas, é bom lembrar a todos que eles estão

aqui para agir em nome dos melhores interesses da escola e das crianças. Também é recomendável nestas ocasiões ter um momento de silêncio e pedir por orientação espiritual dos seres espirituais que acompanham e abençoam esta escola.

5) Não apressar a reunião no sentido de tomar uma decisão. Programe até três reuniões para decisões importantes.

6) Implantar uma política que permita que vocês, como Diretoria ou como colegiado de professores, avancem nas decisões na ausência de consenso após duas ou três reuniões. Esta política poderia ser que o grupo irá seguir adiante com “consenso menos 2 ou 3” ou que irá recorrer a um voto majoritário de ¾ em tais ocasiões.

7) Seja cuidadoso para não ‘demonizar’ a voz dissidente. Por diversas vezes presenciei uma oposição de apenas uma pessoa ao consenso que, na semana seguinte, era percebida como estando plenamente justificada. Reconheça também que não é possível bloquear com demasiada freqüência. Se a mesma pessoa estiver repetidamente bloqueando o consenso, o coordenador, a pessoa que convocou ou o observador do processo poderá ter que convocar uma reunião especial para analisar com o indivíduo o que está acontecendo com ele ou ela no grupo.

Um processo decisório por consenso abordado honestamente e com compreensão irá contribuir para a edificação e o compromisso da comunidade. Trata-se de uma forma de honrar os membros da comunidade escolar bem como o espírito de verdade que se manifesta em cada um de nós.

Fases do Desenvolvimento Grupal

Todas as criações sociais – relacionamentos, grupos, instituições e sociedades –têm em comum um ciclo de desenvolvimento composto por nascimento, crescimento e transformação. No caso de grupos de trabalho, percebo três níveis principais de desenvolvimento. O primeiro é uma fase de encontro e ajuste. Chegamos como novos membros de uma diretoria ou comissão, talvez com alguns outros novos membros e olhamos ao redor. A imagem que tenho desta situação é a de um torneio medieval: todos nós somos cavalheiros, usando armaduras de proteção, e damas, usando lenços coloridos e sedutores. Nestas situações somos cautelosos e nos comportamos muito bem, perguntando a nós mesmos quem está aqui, onde me encaixo, será que irão gostar de mim, com quem eu sintonizo bem, sou necessário, tenho algo a oferecer e uma série de outras perguntas. Ao longo de algumas reuniões desenvolvemos um senso de qual é nosso lugar, com quem estamos naturalmente alinhados e a quem percebemos como sendo sensível, quem é estranho ou difícil e quais questões costumam gerar discórdia. Subgrupos informais tendem a formar-se e adquirimos um conjunto de hábitos como grupo: todos chegamos cinco minutos atrasados, batemos papo rapidamente e escolhemos cadeiras do mesmo lado da mesma; Tomás coordena a reunião, Sandra é a primeira a reagir a qualquer questão apresentadas, Helena espera até estarmos quase terminando para então fazer uma objeção e assim por diante. Tudo isto ocorre de forma semi-consciente e não articulada conosco ou com o grupo.

Nesta primeira fase de desenvolvimento estamos individualmente conscientes das questões relacionais, das simpatias e antipatias, dos conflitos de personalidade no grupo, mas estamos contentes e atentos aos processos, evitando as questões emocionais para podermos avançar. Tornamo-nos um grupo de trabalho ajustado, no qual o aprendizado realmente interessante e a revisão, assim como as manifestações mais emocionais, acontecem com nossos amigos, no carro a caminho de casa ou mais tarde, ao telefone, mas não no próprio grupo.

A maioria dos grupos nunca vai além da orientação para a tarefa de um grupo de trabalho bem ajustado, suportando estoicamente as limitações existentes, não percebendo que há outras possibilidades. A dimensão relacional emocional, ainda que visível nos abraços, nas piadas, nas discordâncias, nos cenhos franzidos ou nas explosões raivosas, é evitada porque o grupo não sabe como lidar com ela. Se o grupo revisar seu processo regularmente ou contar com um coordenador hábil ou um bom facilitador externo, ele conseguirá cruzar o umbral e adentrar o domínio dos sentimentos e das percepções. Quando este passo tornar-se consciente, o grupo entra numa segunda fase importante para o seu desenvolvimento, no qual as questões relacionadas ao processo relacional são abordadas no grupo, ao invés de fora dele. Se a primeira fase podia ser descrita como grupo de trabalho ajustado, eu denominaria esta fase de grupo experimental.

A qualidade do grupo experimental é que ele é capaz de lidar, concomitantemente, com tarefas e relacionamentos. Se duas pessoas estão se atacando, o grupo pode parar o processo, promover uma exploração das questões e, em seguida, seguir em frente. Ele desenvolve as habilidades e a confiança necessárias para abordar a dimensão dos sentimentos da vida grupal. Em um grupo assim, as revisões são honestas, o feedback é direto e há pouca fofoca fora do grupo. Grupos experimentais normalmente criam um forte sentimento de compromisso entre seus membros, porque suas questões relacionais, bem como suas questões voltadas para tarefas, são trabalhadas conscientemente.

A capacidade de avançar para esta fase de desenvolvimento em grupo implica em um encontro mais profundo e em vencer a barreira do medo. Nós tememos a percepção e as opiniões dos outros e a necessidade de sermos responsáveis por e nos colocarmos publicamente a respeito de nossos simpatias e antipatias. Contudo, a prática do cuidado envolve tornarmo-nos cientes de nossas simpatias e antipatias, e lidar com elas de forma responsável quando elas afetarem negativamente nosso trabalho conjunto com os outros. Quando participamos de reuniões repletas de animosidade e mágoas semi-conscientes, acreditamos realmente que os seres espirituais positivos podem atuar? O espaço torna-se psicologicamente e espiritualmente poluído, pedindo que adquiramos a capacidade de realizar uma grande “faxina”, de modo que o sol possa novamente brilhar através das janelas. Fazer uma grande faxina significa que todos os membros do grupo têm a liberdade e a responsabilidade de parar este processo que está sendo emocionalmente prejudicial, fazer uma pausa e pedir aos indivíduos envolvidos que falem claramente a respeito do que está acontecendo, do seu ponto de vista, utilizando frases que iniciem com “Eu...”, ao invés de culpar os outros. Este exercício pode “limpar a atmosfera” em cinco minutos, se ficar restrito à questão presente, permitindo que a reunião prossiga. Também é no âmbito dos relacionamentos e sentimentos que a prática de uma boa revisão pode ser enormemente útil, onde um assessor ou coach de processo desempenha um papel essencial, como observador e ajudante imparcial.

Através da habilidade de trabalhar com relacionamentos mais conscientemente, o grupo desenvolve calor e compromisso entre seus membros. Paramos de criticar uns aos outros no corredor ou a caminho de casa e desenvolvemos maior interesse uns nos outros. Muitas vezes compartilhar partes de nossa biografia pode apoiar um interesse mais profundo. Dedicar dez minutos de cada reunião a uma troca, permitindo que uma ou duas pessoas abordem questões específicas de sua biografia, pode aumentar a compreensão mútua. Eis algumas perguntas que podem ser úteis:

Perguntas para Compartilhar a Biografia

Como cheguei à pedagogia Waldorf?

  • Como iniciei minha jornada?
  • Compartilhar uma foto de si mesmo(a) aos 6 anos: seu quarto favorito, roupas, personalidade.
  • Quem eram seus heróis e heroínas na adolescência?
  • Descrever três pessoas que desempenharam um papel significativo em sua vida.
  • Quais eram as ordens faladas e não-faladas em sua casa durante sua adolescência e como elas estão presentes em você hoje?
  • Que aspectos de seu trabalho lhe dão alegria hoje?

Seria bom que cada um pudesse trabalhar a mesma pergunta e, após encerrar a rodada, escolher uma nova pergunta para ser compartilhado com todos. As oportunidades para tal compartilhar estruturado podem ser facilmente criadas e acrescentarão vida e alegria à reunião. O colegiado de professores, a comissão financeira, a diretoria ou o conselho de pais: quando tiverem adquirido a capacidade de realizar reuniões efetivas, nas quais tanto as tarefas quanto os relacionamentos podem ser bem trabalhados, irão perceber um interesse crescente em como as necessidades do indivíduo e da comunidade escolar podem ser atendidas. Este relacionamento de apoio mútuo entre o indivíduo e a comunidade foi claramente expresso por Rudolf Steiner no Moto da Ética Social:

“Salutar só é quando no espelho da alma humana se forma a comunidade inteira, e na comunidade
vive a força da alma individual.”

Quando as pessoas são encontradas e vistas no grupo e os indivíduos da comunidade sentem-se chamados para servir à comunidade com seus talentos, a comunidade é percebida como o solo, o ambiente no qual podemos, cada um de nós, realizar nossas mais profundas intenções. Entrar no nível da vontade – o que podemos fazer juntos para servir ao todo e o que podemos fazer para servirmos uns aos outros em nosso desenvolvimento – torna-se o terceiro nível básico de desenvolvimento em um grupo. Eu diria que este nível representa a maturidade criativa do grupo. Ao trabalhar com alguns grupos que atingiram este nível de cuidado, energia e criatividade, percebi um alto nível de compromisso, alegria e uma capacidade impressionante de trabalho efetivo. Tais grupos conseguem funcionar como uma benção para toda a comunidade e para seus membros. Eles ajudam uns aos outros a encontrar nova direção na vida, e podem sonhar e realizar tarefas muitas além de suas responsabilidades.

Estágio do Desenvolvimento Grupal

Grupo Inicial

Nível do Pensar – Grupo de Trabalho Ajustado (Tarefa)

Nível do Sentir – Grupo Experimental (Tarefa e Relacionamento)

Nível do Sentir – Grupo Criativo Maduro (Tarefa, Relacionamento, Destino)

Finalização Consciente

Sugeri que os grupos e comitês podem desenvolver-se partindo de um grupo de trabalho ajustado, que está orientado principalmente para tarefas, em direção a um nível de experiência no qual ambos, tarefas e relacionamentos são trabalhados até o estágio de maturidade, caracterizado por altos níveis de criatividade e compromisso. Esta concepção de desenvolvimento de equipes é semelhante àquela descrito por Tuckman e Gibb como um processo de desenvolvimento que parte da formação (grupo iniciante), passando para a tempestade (conflito e sub-grupos), para a normatização (acordo em prol da cooperação), até chegar ao desempenho.

Para que os grupos possam desenvolver-se até a maturidade, são necessários níveis crescentes de consciência e compromisso. A evolução para além do grupo de trabalho ajustado não acontece por si mesma. Muitos grupos com os quais trabalhei – tanto em escolas Waldorf quanto em outras instituições – nunca avançaram para além do grupo de trabalho ajustado, pois nunca conseguiram trabalhar coletivamente seus relacionamentos dentro do grupo. Ás vezes os conflitos interpessoais permitem o rompimento de uma rotina emperrada, levando à mediação ou facilitação externas e ao desenvolvimento. Lembro de muitas situações em que participei de círculos de professores, onde dois sub-grupos se enfrentavam com um alto grau de suspeita e antipatia; estes sub-grupos somente começaram a trabalhar suas questões quando ocorreu uma queda nas matrículas ou o descontentamento dos pais os forçou a entrar em movimento. Um processo contínuo e vivo de revisão das reuniões pode evitar tal ruptura e pode promover o desenvolvimento grupal de forma contínua.

Os grupos também podem ter um fim – quando saem três membros da Diretoria, quando uma comissão antiga é dissolvida. É importante que os términos sejam reconhecidos através de uma revisão da vida do grupo. Expressões de agradecimento, um sketch, uma peça de teatro ou um presente podem ser oferecidos. Através de uma finalização consciente ficamos livres para assumirmos novas tarefas.

Os grupos podem avançar mais ou menos rapidamente ao longo destes estágios de desenvolvimento. Através de uma intensa preparação interior, às vezes um grupo pode alcançar momentos abençoados já no início de seu desenvolvimento. Qualquer grupo em uma comunidade escolar Waldorf pode tornar-se um grupo maduro efetivo se seus membros estiverem comprometidos com um processo de desenvolvimento interior, com a revisão grupal e com uma aprendizagem comum acerca da “qualidade artística moral grupal”, para usar a expressão de Marjorie Spock. Para que possamos realizar nosso trabalho nas comunidades de escolas Waldorf, isto precisa ser a regra, não a exceção. Exige que desenvolvamos um grande interesse na licitude, na arte e na moralidade do trabalho em grupo.

Arte e Jogos:

O trabalho artístico pode ser um meio muito importante para o desenvolvimento grupal. Euritmia e canto são especialmente úteis, na medida que trazem à consciência um forte elemento comunitário – nos movimentamos em conjunto e combinamos nossas vozes individuais para criar um todo harmonioso; através de uma melodia redonda e simples ou de uma peça para coral a quatro vozes. Rudolf Steiner sugere que a arte da escultura nos ensina a respeito dos princípios formativos da construção de instituições; que a pintura e a Euritmia nos levam para o âmbito dos relacionamentos; enquanto as artes musicais nos ajudam a experimentar a natureza essencial da comunidade.

Os jogos desempenham uma função complementar às artes – desenvolvem nosso humor e espírito brincalhão. Eles nos permitem experimentar uns aos outros de forma menos séria, sermos crianças e praticar a confiança e a cooperação. Por este motivo, os jogos e canções estão espalhados ao longo destes artigos sobre a construção de comunidades de escolas Waldorf.

Comunhão Sacramental e Espiritual:

Até aqui explorei os aspectos psicológicos e mais externos do diálogo e do trabalho em grupo. Gostaria de abordar agora uma dimensão mais sagrada do trabalho conjunto em comunidade. O ponto de partida é reconhecer que não há situação social isenta de realidades psicológicas e espirituais. Se conseguirmos aceitar isto, então o desafio para todos nós em comunidades de escolas Waldorf passa a ser como trabalhar juntos de modo que seja criado um templo, no qual os espíritos que atuam positivamente possam estar presentes. Estes seres – espíritos elementais da natureza, anjos, arcanjos e arqueus, para usar termos cristãos medievais – estão profundamente interessados em nossas atividades e anseiam por poder conversar conosco de novas maneiras. Espíritos de atuação positiva somente podem fazer isto hoje se formos co-criadores ativos com eles, visto que eles precisam salvaguardar nossa liberdade. Rudolf Steiner descreve esta nova possibilidade de co-criação nos seguintes termos:

“Portanto, as associações humanas são os locais sagrados para onde descem os seres espirituais superiores a fim de trabalhar através dos indivíduos, assim como a alma trabalha através do corpo.”

Acredito que existem dois caminhos para grupos que buscam estabelecer um diálogo consciente, uma comunhão consciente com o mundo espiritual. O primeiro é a comunhão sacramental, praticada em diversos contextos religiosos ou eclesiásticos, onde um sacerdote ou religioso invoca o mundo espiritual através de um conjunto de atos ritualísticos prescritos. O outro é a comunhão espiritual ou o que Rudolf Steiner descreve como o “ritual cósmico”, no qual os membros de uma comunidade trabalham em conjunto de tal forma que suas palavras e atos erguem a experiência humana a um nível espiritual supra-sensível.

Ao descrever as diferenças entre estes dois caminhos, Rudolf Steiner afirma: “Eu diria que a comunidade do culto (comunhão sacramental) busca atrair os anjos dos céus para baixo, para o lugar onde o ritual está sendo celebrado, de modo que eles possam estar presentes na congregação, enquanto a comunidade antroposófica (ou a comunidade Waldorf) busca erguer as almas humanas para o âmbito supra-sensível, de modo que elas possam estar na companhia dos anjos.”

O ritual sacramental das igrejas cristãs move-se da leitura do evangelho ( revelação da palavra divina) para a oferenda, a transubstanciação do pão e do vinho no corpo do Cristo; e finalmente, para a comunhão da comunidade das almas cristãs através da ingestão do pão e do vinho. Trata-se de um ato poderoso e sempre de novo renovador para a comunidade de crentes.

A comunidade espiritual também pode ser percebida como ocorrendo em estágios. O primeiro estágio é da reunião inicial – digamos numa terça-feira à noite, às 8 horas, na sala do 6º. Ano. Podemos chegar ainda internamente repletos com nossas atividades cotidianas, cansados e um pouco irritados, mas podemos parar por um momento e reconhecer que estamos adentrando um espaço potencialmente sagrado e parar por um momento para nos refazermos. Podemos então, silenciosamente, olhar uns aos outros e nos conscientizarmos de que somos seres divinos, bem como terrenos. Reconhecer, relembrar que cada um de nós é uma revelação do divino – agora vestindo o manto deste corpo em particular e com esta personalidade – pode nos trazer paciência, bem como reverência. Não é fácil criar esta atmosfera em nós mesmos, especialmente em relação àqueles que percebemos com antipatia. Mas, com a prática e havendo interesse, podemos experienciar esta atmosfera e esta possibilidade com cada pessoa que encontramos.

A seguir, iniciamos uma conversa, um diálogo. Aqui somos chamados a compreender o outro, a ouvir também as melodias dos diferentes pensamentos e sentimentos. Para desenvolver a compreensão, precisamos fazer uma oferenda, voltar nossa atenção para o outro, experienciar por um momento “Eu sou você”. Na medida que experiencio este estágio do diálogo grupal em mim mesmo, tenho que abrir um espaço em mim mesmo, aquietar meus pensamentos e reações para deixar o outro viver em mim. É cansativo, pois preciso estar quieto e, ao mesmo tempo, focado no outro, evitando que minha atenção vagueie. Quando falo, preciso saber o que é essencial ser expresso, qual é minha verdade e a do grupo neste momento. É outro tipo de oferenda: não dizer o que surge na minha mente, mas expressar o que é essencial para que o grupo possa avançar. Ao ouvir, sacrificamos o convívio com nossos próprios pensamentos e sentimentos, e ao falarmos o essencial, abdicamos da plenitude e diversidade de nosso diálogo anímico interno.

Em O Aspecto Interior da Questão Social, Rudolf Steiner descreve um exercício que capta o estado de espírito da oferenda, do ouvir, do estar atento ao outro. “Em tudo aquilo que o menor dentre nossos irmãos pensar, deverás reconhece que sou Eu pensando através dele; e que Eu entro em teus sentimentos sempre que tu trazes o pensamento do outro em relação ao teu próprio, e quando tu sentires um interesse fraternal por aquilo que está se passando na alma do outro. Seja lá qual for a opinião ou visão da vida, tu descobrirás no menor dentre teus irmãos que aí encontrarás a ti mesmo.”

Ao ouvir e falar com genuíno cuidado criamos uma atmosfera de reverência uns em relação aos outros, que nos permite sermos mais livres, agirmos a partir de nossos eus superiores, dizer e ouvir coisas plenas de sabedoria. Trabalhar desta maneira nos permite superar muitos obstáculos entre nós e abre espaço para a participação e as bênçãos dos anjos.

O terceiro estágio da comunhão espiritual em comunidade é alcançado quando, a partir da compreensão e da empatia mútuas, somos capazes de agir em relação uns aos outros e em relação a todo o grupo com compaixão e amor. Athys Floride, em seu livro poético e comovente Human Encounters and Karma, escreve:

“Este estágio, que corresponde à Transubstanciação, precisa ser desejado; fazer isto irá exigir todas as forças de que dispomos. A percepção do outro, de nosso vínculo com o outro, agora torna-se mais profundo. Adentramos um reino onde as forças do carma estão atuando. Agora podemos buscar compreender os impulsos, as correntes que nos levam de encontro a outros seres humanos.”

Esta transubstanciação ocorre quando os membros do grupo – do colegiado de professores, da diretoria ou da comissão de pais – reconhecem, cada um em si mesmo que eu estou aqui com meus parceiros de destino e que eu sou solicitado a dar ao grupo e a cada membro do grupo o que é necessário para nosso mútuo desenvolvimento. Baseia-se no conhecimento profundo expresso por Martin Luther King:

“Todos os homens estão presos em uma inescapável rede de mutualidade, atados em uma única veste do destino. O que afeta a um diretamente, afeta a todos indiretamente. Nunca poderei ser o que devo ser até que você seja o que você deve ser. E você nunca poderá ser o que deve ser, até que eu seja o que devo ser.”

Ao participar do Grupo Nuclear (Core Group) do Sunbridge College – o principal órgão espiritual e de tomada de decisão da Faculdade – durante dez anos, muitas vezes experimentei um sentimento de alegria e reconhecimento de que eu fazia parte de uma comunidade de destino que me pedia para dar mais de mim mesmo e a partir de uma parte superior de mim mesmo, mais elevada que o normal. Houve ocasiões em que isto nos permitiu atuarmos uns em relação aos outros de maneira profundamente amorosa, sem nos tornamos sentimentais.

O quarto estágio da comunhão espiritual é a comunhão, a percepção da presença do espírito. Todos nós tivemos experiências momentâneas de comunhão espiritual durante conversas ou em grupos, um sentimento de uma presença mágica, mas não sabemos exatamente por que. Eu estava tentando compreender as diferenças entre a comunhão sacramental e espiritual no final da década de 1980, quando um amigo me deu a seguinte descrição de Rudolf Steiner sobre como nós contemplamos, compreendemos, amamos e criamos uns aos outros, entre a morte e um novo nascimento.

“Assim, no primeiro estágio pós-morte, o ser humano move-se entre as fisionomias-espírito daqueles que estão conectados a ele por destino: ele contempla estas fisionomias. Os seres humanos aprendem a conhecer uns aos outros na forma-espírito, eles aprendem a conhecer as qualidades morais e espirituais uns dos outros. Neste primeiro estágio, porém, trata-se somente de uma contemplação, de ver; apesar de isto significar que as almas entram em íntima conexão, trata-se apenas de contemplação. Depois começa o período que descrevi como sendo o período de compreensão mútua. Um começa a compreender o outro; um repousa o olhar sobre o outro longamente e olha para dentro de sua natureza interna, sabendo naquele instante que a atuação certeira do destino irá vincular o futuro ao passado. Inicia-se então o grande processo da transformação, onde um é capaz de atuar sobre o outro a partir de um profundo conhecimento e compreensão, e a moldagem plástica do espírito é assumida e transformada em música e em fala. E aqui chegamos a algo maior do que a compreensão; um ser humano é capaz de falar a outro sua própria palavra criativa e calorosa... A palavra que é um ser humano funde-se com a palavra que é o outro ser humano. E é aí que são formados aqueles laços de destino que atuam sobre a próxima encarnação e se expressam na simpatia ou antipatia que um ser humano sente quando ele ou ela encontra o outro.”

Ainda que alguns leitores possam ter dificuldades para acreditar nesta imagem, permitam que ela viva como uma possibilidade, um arquétipo em sua alma e ela poderá dar forma à sua imaginação em relação à possibilidade da verdadeira comunidade. Trata-se de uma contrapartida e uma imagem celestial daquilo que podemos conscientemente tentar recriar na terra em comunhão espiritual, em nossos grupos dentro da escola.

Quando estas qualidades e humores estão presentes – o reconhecimento do divino em cada um de nós, a oferenda de nossa atenção através do ouvir e falar conscientes e o profundo reconhecimento de nossos laços cármicos e de nosso endividamento mútuo (transubstanciação) – então abrimos espaço para a presença e a benção dos seres espirituais que nos oferecem a comunhão. Tal desenvolvimento pode ocorrer ao longo de muitas conversas ou pode ocorrer em uma única reunião; em ambos os casos, trata-se da construção de um novo templo no qual experimentamos a comunhão espiritual.

inda que experiências de comunhão espiritual aconteçam a indivíduos e grupos através da graça, é possível cultivar um entendimento, uma percepção de atitudes, estados de ânimo e ações que tornam a comunhão espiritual possível em todas as comunidades de escolas Waldorf e em outras instituições que buscam servir às necessidades de seu tempo. Esta é, creio eu, uma questão de consciência e prática. Um número cada vez maior de grupos está trabalhando conscientemente a tarefa da construção de comunidades espirituais, incluindo M. Scott Peck e a Foundation for Community Encouragement (Fundação de Incentivo à Comunidade), Georg Kuhlewind e seus co-trabalhadores e muitos grupos de diálogo baseados no trabalho de David Bohm. É essencial para a saúde das comunidades de escolas Waldorf que nós nos engajemos mais ativamente nesta exploração consciente da verdadeira comunidade, na qual podemos tornar

Ver Heinz Zimmerman. Speaking, Listening, Understanding: The Art of Creating Conscious Conversation – Lindiesfarne Press, 1996. Também ver o maravilhoso livro de Paul Mathews. Sing me the Creation : A Sourcebook for Poets, Teachers and for all who work to develop the life of the imagination.

 

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