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Uma Terceira Vertente do Movimento Waldorf

Peter Guttenhöefer

A Pedagogia Waldorf encontra-se num limiar de seu desenvolvimento, num momento em que se faz necessário criar-se novas imagens. Em todos nós vive a estrutura da escola Waldorf de 12 anos, da forma que Rudolf Steiner a instituiu, acalentamos em nós este ideal como a uma chama sagrada: todo ser humano sobre a face da terra tem o direito de freqüentar a escola até os 19 anos! Assim pois, muitas escolas Waldorf foram fundadas na Europa Central e em outros países do mundo, com a pretensão e a promessa aos pais de conduzir os alunos até o curso superior, como fazia desde o início a escola-mãe de Stuttgart. Hoje nós só vivenciamos o quão difícil é conduzir nosso ensino médio no verdadeiro espírito da pedagogia antroposófica. Sim, muita coisa já se degenerou, corrompeu-se perante a necessidade de se oferecer um certificado de conclusão, o ensino tornou-se vazio, monótono. Os colegiados de professores sobrecarregados não encontram seguidores suficientes nas novas gerações, alguns seminários de professores estão quase vazios e finalmente já há algum tempo vem diminuindo o número de alunos que procuram a escola.

Podemos nos desprender desta imagem primordial? Podemos nos desgarrar da luz fulgurante que provém da visão de Steiner e, com o olhar sobre as condições de vida em transformação do país, perceber o vislumbre de uma outra imagem que surge ao longe, provinda da escuridão?

Para inúmeras crianças da África do Sul, uma escola fundamental de quatro anos, onde se praticasse a pedagogia Waldorf seria uma oferta fantástica. Nós podemos mudar nossos pontos de vista e ver a coisa "a partir de baixo"? Quatro anos de escola Waldorf são, vistos de baixo, algo inteiro, não só um fragmento de algo que de fato queremos. Vistos "de cima", dão a impressão de "nível primário", de classes iniciais, de começo de um ciclo de 12 anos que percorre um currículo magnífico com seus grandes tesouros do espírito. O ponto de vista "de baixo" pode ser encontrado com facilidade, quando se tem claro que, por exemplo, em algumas regiões da África do Sul, para muitas crianças não existe nenhuma formação escolar, pelo simples fato da escola mais próxima ficar a 40 km de distância.Aí a oferta de quatro anos seria de toda forma bem-vinda. Contudo, o verdadeiro significado desta mudança de ponto de vista torna-se claro para nós, no momento em que nos conscientizamos de quão ruins são, em geral, as escolas primárias espalhadas por todo o globo terrestre. Basta ver a forma como hoje as forças da infância são pisoteadas, ou a forma como o velho sábio da terra Zulu declarou inequivocamente "morta" toda a educação ministrada pelo estado! Se, porém, nossas forças forem tão limitadas, como de fato o são, então que as apliquemos na luta e no lugar corretos.

Passaram-se muitos anos até que no movimento pedagógico se afirmasse o ponto de vista de que o jardim-de-infância é, em si, algo autônomo, uma unidade pedagógica e não apenas porta de entrada e preparatório para a escola. A obra de vida de Helmut von Kügelgen foi dar validade a este conhecimento e o caudal de jardins-de-infância finalmente desenvolveu sua própria dinâmica por todo o mundo. Os jardins-de-infância Waldorf constituem uma oferta pedagógica redonda que tem igualmente seu significado para a criança, independente da freqüência posterior de uma escola Waldorf. Assim, pelo esforço incansável de von Kügelgen, uma segunda vertente foi encorajada, paralelamente ao movimento Waldorf "tradicional". A possibilidade de uma terceira "vertente" torna-se visível agora: a escola primária Waldorf.

Nós podemos estabelecer de maneira diferente as prioridades para o novo século?

Esta pergunta diz respeito não só à África do Sul, mas também a muitos outros países do mundo, no entanto quero tomar como exemplo a situação da África do Sul, pois as experiências de minhas quatro viagens àquele país para ministrar cursos de aprofundamento para professores me ensinaram que lá é tempo de dar o próximo passo necessário. Este passo consistiria em planejar a fundação de uma tal escola primária até o quarto ano em um local apropriado e a seguir achar o grupo de pais ideal que não tivesse a pretensão de ter mais de quatro anos de escola Waldorf. Tal grupo de pais seria para nós uma oportunidade muito nova; a reação mais comum de personalidades Waldorf "experientes" à minha proposta, é a afirmação de que é impossível encontrar-se tais pais, uma vez que a maioria das pessoas não depositaria confiança em uma escola que de antemão oferecesse "só" quatro anos de escolaridade. Este "só" é infelizmente fruto de idéias pré-concebidas, rígidas, e esta reação nós não nos cansamos de provocar até agora com nosso ponto de vista inflexível, "de cima". Apesar de tudo, estes pais têm de ser encontrados e conversas com as mais diversas personalidades do país reforçaram minha opinião de que se poderia contar com um grande grupo potencial de pais com este perfil.

O passo de desenvolvimento a que nos referimos tem dois pré-requisitos: primeiro tem de ser possível proporcionarmos uma imagem viva e nítida da qualidade dos quatro primeiros anos da escola Waldorf. Isto não significa pouco! É que aí já estão contidos, isto sim, os maiores tesouros de sabedoria do conhecimento antroposófico do Homem e do mundo. Uma criança que tiver passado por estas classes - desde que o ensino seja dado segundo as indicações de Rudolf Steiner - foi alimentada com substância espiritual tão forte que seu sistema imunológico anímico-espiritual, chegando quem sabe a atingir até mesmo a imunidade física, será uma armadura a protegê-la dos golpes que ela venha a sofrer. Até ultrapassar o assim chamado "rubicão", a criança vai ser guiada espiritualmente pelas forças da infância da humanidade, e se não pudermos continuar a conduzi-la, então nós a liberamos para seu futuro, pelo qual nós não podemos assumir nenhuma responsabilidade.

O segundo pré-requisito é que nós busquemos professores e professoras potenciais. Naturalmente em primeira linha professoras! As mulheres, as mulheres maternais, e existem inúmeras com talento pedagógico natural, especialmente talvez na África. Mulheres sem formação mais especializada de professora, mulheres que por sua formação escolar um pouco mais abrangente e uma simples formação de professoras primárias adquiriram as capacidades pedagógicas fundamentais. Dependendo da situação legal do país, talvez até mesmo mulheres que não buscaram nenhuma profissão na área da educação, aquelas que educaram seus próprios filhos e agora se dispõem a uma nova atividade. Em muitas destas mulheres encontra-se adormecido um potencial pedagógico que pode ser despertado. Neste campo já existe na África do Sul toda sorte de experiências, porém, sobretudo, no âmbito pré-escolar, portanto de jardim-de-infância e pré-escola. Aqui se poderia empregar o maior esforço na formação de professores.

Uma clara substância anímica pré-cristã clama nos corações dos negros por uma vida numa verdadeira cultura da alma da consciência, portanto numa corrente universal da humanidade, não na corrente da globalização conduzida pelos centros de civilização do Atlântico Norte que a todos engole. As ferramentas para uma vida criativa neste sentido podem ser fornecidas pela Antroposofia e pela Pedagogia Waldorf.

Com isso, a terceira corrente poderia ser posta em curso, e quando em 30 anos, centenas de escolas primárias Waldorf trabalhassem no país, então estaria formado o húmus sobre o qual outras coisas poderiam crescer, inclusive a escola Waldorf de 12 anos, a escola Waldorf profissionalizante, a escola Waldorf de 7 anos, a escola Waldorf multicultural e todas as formas de escola possíveis, para as quais no momento nos falta a necessária fantasia.

Quando imaginamos a escola primária de 4 anos tão concretamente quanto possível, então teremos de ter bem claro que uma parte do 4º ano da escola tem de ser dedicado à preparação das crianças para uma possível mudança para outras escolas. Também isto é preciso conseguir, e isto corresponde ao que Rudolf Steiner exigia outrora.

O que apresentamos, descrito de forma breve, tem por um lado caráter de imagem primordial, por outro lado trata-se de uma resposta pragmática à situação atual em um país. A pedagogia Waldorf encontra-se no início de seu desenvolvimento, um século do qual - e não de todo felizmente - se passou, muitos outros se seguirão, e que tudo aquilo que no momento nós lamentamos e encaramos como indícios de decadência da escola Waldorf, que os sintomas de crise possam gerar uma mudança, cuja direção nós procuramos. Que justo de regiões distantes da Europa Central possam nos vir indicadores a nos nortear a direção a seguir. E tal corrente de escolas primárias não seria saudável também para a Alemanha e outros países?

Já se torna concreta uma quarta corrente a que se deu o nome de "Alliance for Childhood". Educação nos três primeiros anos, educação de jovens pais de crianças pequenas, como por exemplo, Ute Kraemer acaba de dar início na Favela Monte Azul em São Paulo. O pão se multiplica...

 

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