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Proposta para um Currículo Social

Ute Craemer

As propostas que seguem são idéias que frutificaram a partir de perguntas acerca da questão social atual do Brasil e do mundo.

Falando mais precisamente do Brasil, vemos hoje uma minoria de estudantes os quais têm a possibilidade de desfrutar de uma boa educação escolar, dentre esses, os alunos das Escolas Waldorf, de escolas que compartilham das mais diversas pedagogias e outros. Vemos também uma grande maioria impossibilitada de ao menos poder escolher por uma boa e justa educação escolar, e outra parte ainda sem acesso à essa educação.

Acreditamos na enorme importância atual de se disponibilizar recursos para começarmos a "construir a ponte" que une essas duas tão diferentes realidades. Acreditamos assim, pois, pensamos que é da construção desta ponte que floresce no ser humano a verdadeira consciência da atual questão social da humanidade, a qual é muito diferente do entendimento da mesma! E acreditamos ainda que é desta consciência que nasce no homem o impulso e a vontade de atuação e transformação do mundo.

Embora a Pedagogia Waldorf naturalmente acorde a sensibilidade do ser humano para o outro, a vontade de ajudar muitas vezes permanece circunscrita ao próprio âmbito social. Para caminhar na direção de um impulso de atuação social, a sensibilidade para o outro deve ser mais forte do que a consciência das diferentes camadas em que vivem os homens.

Surgem então as questões: O que fazer para que os estudantes mais privilegiados não só enxerguem essa realidade social que os cerca, mas também sintam dentro de si a vontade de transformá-la? Sabemos que existem formas de despertá-los para a questão social de forma didática e até mesmo lúdica.

Sabemos também que é preciso caminhar cuidadosamente, para por exemplo não agir precocemente com crianças muito pequenas.

Portanto, relacionamos abaixo algumas possíveis idéias que poderiam ser inclusas no currículo desta escola, para tal ocasião as denominamos Propostas para um Currículo Social. As propostas estão divididas desde o Jardim da Infância, e a partir do primeiro até o décimo segundo ano estão divididas em triênios devido a uma questão didática e principalmente para que estas idéias não se restrinjam por si próprias, mas sim se ampliem com mais idéias e discussões. Cremos que esse é um impulso do início de um caminho que deve e precisa ser trilhado em conjunto.

Jardim da Infância

Primeiro é preciso aprender a dar e a dividir. Isto começa, através de exemplos práticos como  fazer cartões de Natal para os funcionários da administração e da manutenção. Os professores podem contar histórias impregnadas dos valores da doação e da justiça, para que dessa forma estes valores atuem na alma infantil. Um bom exemplo é a história “Moedas de Estrelas”. Se possível, poder-se-ia também incluir uma história da vida do professor. Qualquer história? Todos os professores tem história de vida que ensina a dar e a dividir?

Primeiro, sengundo e terceiro anos

Durante os três primeiros anos escolares, podem ser promovidos encontros entre crianças de ambientes sociais diferentes, através de excursões, teatro, brincadeiras, etc. Por exemplo as crianças da favela poderiam preparar uma peça de teatro para apresentarem às crianças de escolas particulares e vice-versa. Em seguida, poderia haver brincadeiras conjuntas, inclusive a representação teatral.

 Essa troca de vivências é importante para evitar que surja, nas crianças de classe mais privilegiada, um “sentimento de superioridade”. Será importante que tais atividades sempre sejam promovidas de tal forma que ambos os grupos logo pudessem perceber a troca, o que se deu e o que se recebeu.

 Durante as épocas cristãs, como Natal ou Páscoa, poderia haver trocas de presentes, de ovos pintados, cartões etc.

 O aprendizado social pode ocorrer na própria escola com o pessoal da manutenção, do escritório, etc. ou com outros alunos. As crianças podem fazer brinquedos de madeira para o jardim de infância da própria escola ou promover excursões em que cada criança se responsabilize por cuidar de uma outra do jardim de infância. Também se pode pensar em apresentações de roda, música, teatro, preparadas pelas crianças maiores para as crianças menores.

Quarto, quinto e sexto anos

Crianças de 10, 11 e 12 anos gostam muito de saber como vivem outras de sua idade. Assim, a partir do 4° ano, já se poderia falar sobre a vida das crianças excluídas, sua vida cotidiana, os problemas com que convivem: a falta de água encanada, a situação da favela quando chove ou faz frio etc. Nesse caso é muito importante e necessário contar os fatos de tal forma que, novamente, não se crie o “sentimento de superioridade”. Será benéfico que o professor tenha uma relação própria com o que ele conta, por exemplo, falar sobre a vida de uma criança que ele conheça.

 A partir do 5° ano,  grupos de diferentes classes sociais poderão comemorar as festas juntos, como São João e Natal. Será bom que as crianças da favela não só recebam, mas que ofereçam alguma coisa. Elas poderão desenhar ou presentear as crianças com uma peça.  

A partir do 6° ano, pode-se falar de biografias de pessoas que dedicaram sua vida aos outros. Alguns exemplos são: Schweitzer, Rondon, Mahatma Gandhi, Orlando Villas Boa, Martin Luther King, Dom Helder Câmara, Rudolf Steiner, Nelson Mandela, Florence Nightingale, Helen Keller, Jacques Lusseyran, entre muitos outros.

 Estas histórias de vida deixam plantados, na alma do jovem, a vontade de não depositar seu ideal apenas em conquistas sensoriais. Os jovens vivenciam, assim, atuações a partir do espírito, do amor pelo humano.

Sétimo, oitavo e nono anos

A partir do 7° ano, os alunos devem ser incentivados a contribuir com uma instituição como orfanato, escola pública, centros comunitários, etc. ajudando, por exemplo, nos trabalhos manuais, apresentações teatrais, brincadeiras etc.

 Podem ser realizados trabalhos manuais durante a aula, a serem doados para uma creche ou orfanato (por exemplo: “quadradinhos de tricô para cobertor”). É importante que os adolescentes ou crianças já conheçam quem receberá as doações, pois assim se estabelece uma relação mais próxima entre elas. Sendo assim, uma visita ao local ou instituição que receberá as doações já poderia ser programada anteriormente.

 Campanhas de coleta seletiva de lixo ou de doação de roupas também são úteis.

 Alunos acima de 16 anos podem ser voluntários, para auxiliar, como monitores, em excursões ou em aulas em uma entidade social ou escola pública.

Décimo, décimo primeiro e décimo segundo anos

Existe uma idéia que já é realizada em algumas escolas Waldorf, que é a do Apadrinhamento. Um aluno do colegial torna-se padrinho de uma criança recém-chegada à escola. (Relato mais detalhado da experiência, segue  em anexo).

 No colegial, a aproximação dos problemas da população carente não deve ser apenas através da ação e do sentimento, mas também através do pensar. É importante o aprofundar no estudo e avaliação da história, fatos, razões, causas, conseqüências e conhecidas soluções para o problema social.

 Neste ponto é importante mencionar o propósito de utilizar a palavra “social” (currículo social, questão social). Fazemos referência a “social” na concepção real da palavra e não apenas na concepção hegemônica, de nossa época, na qual os excluídos da sociedade são vistos como culpados da própria exclusão, pois acreditamos que tais questões resultam da falta de compreensão das necessidades e dos direitos de todo ser humano, independentemente de sua classe social. Por esta razão a importância de se incluir em currículo escolar atividades que possibilitem convívio entre crianças de diferentes realidades sociais, o que levará, acreditamos, à compreensão e busca de soluções.

 A partir deste trabalho cresce a oportunidade, através das aulas das disciplinas já existentes, de se abordar e buscar mais informação, entendimento e consciência sobre o atual problema social no Brasil.

Por exemplo, na Biologia: a relação da alimentação com o desenvolvimento intelectual do ser humano; na História: o que os negros trouxeram ao Brasil?  Ou a ligação da industrialização  com o surgimento das favelas; na Filosofia: a cosmovisão dos índios Tupi.

 Os alunos que queiram fazer trabalhos anuais voltados para a questão social, devem ser incentivados  a conhecerem  as favelas, fazer entrevistas e trabalhos com crianças carentes.....

 

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